Siad Barre foi ditador da Somália por vinte e dois anos, de 1969 a 1991. Nascido em outubro de 1919, Siad Barre foi ditador em uma época na qual a África estava sendo pulverizada por ditaduras comunistas, sendo contaminada pela ideologia marxista-leninista em todas as partes, o que explicaria, em boa medida, a sua situação de miséria endêmica.

Siad Barre

Um militar que teve a oportunidade de estudar e aperfeiçoar-se na União Soviética, uma vez em território soviético, Siad Barre eventualmente assimilou a doutrina marxista, tornando-se um ardoroso defensor do sistema de governo centralizado. Quando regressou ao seu país, Siad Barre foi capaz de ascender nos altos escalões da hierarquia militar, tornando-se o segundo em comando no exército somali, em um momento no qual o país deixava de ser colônia europeia e adquiria a sua independência.

Não obstante, assim como os demais países do continente, turbulências internas impediam a nação de atingir estabilidade política e econômica. Quando, em 1969, o segundo presidente foi assassinado, a alta cúpula do exército — o que incluía Siad Barre — viu na ocasião uma excelente oportunidade para tomar o poder. Embora seja impossível verificar, é provável que a iniciativa tenha partido do próprio Siad Barre.

Uma vez no poder, ao contrário de muitos ditadores, que inicialmente procuram ser discretos e moderados, Siad Barre não escondeu suas explícitas e abusivas pretensões ditatoriais. Imediatamente começou a difundir e estimular por todo o país um portentoso e ambicioso culto de personalidade à sua pessoa, e garantiu para que, em ocasiões especiais, as ruas da capital fossem inundadas com retratos dele ao lado de Marx e Lênin.

Uma das primeiras medidas do ditador foi implementar o que ficou conhecido como Supremo Conselho Revolucionário, que tratou de estatizar bancos e indústrias, e direcionar a economia do país. Em 1976, o Conselho Revolucionário foi suplantado pelo Partido Socialista Revolucionário Somali, que tinha por objetivo empreender uma junção do socialismo científico com as raízes islâmicas da Somália. Não obstante, depois que uma nova constituição foi promulgada, alguns anos mais tarde, em 1979, o Partido Socialista Revolucionário Somali foi dissolvido, e o Supremo Conselho Revolucionário foi restabelecido em seu lugar.

O governo de Siad Barre foi caracterizado primariamente por terror, crueldade, brutalidade e opressão sistemáticas. Como qualquer ditador, Siad Barre empregou parte significativa do seu tempo e dos recursos do estado perseguindo, torturando e executando opositores, com o objetivo de destroçar qualquer resistência ao seu regime. Durante os últimos anos do seu governo, os isaaqs, um histórico clã somali, foi brutalmente hostilizado e perseguido, eventualmente sendo vítima de um atroz e violento mortícinio. A campanha de terror dirigida contra os isaaqs levou boa parte deles a fugir do país, e cruzar a fronteira com a Etiópia. O deslocamento massivo desta etnia somali para o país vizinho — que vivia igualmente os momentos finais de uma ditadura — acabou criando o que veio a ser o maior campo de refugiados do mundo, na época.

Embora Siad Barre enfatizasse a probição da divisão da sociedade em castas, classes e clãs, na prática, isso nunca foi obedecido. Conforme seu governo afundava no caos — na inevitável sordidez de uma profunda e irreversível instabilidade política e econômica, inerente a governos socialistas —, grupos organizados de guerrilha armada e de resistência ao regime ditatorial sentiam uma necessidade cada vez maior de tomar o poder, para reverter a deplorável situação em que se encontrava o país. Alguns grupos recebiam financiamento externo para suas atividades de guerrilha, inclusive da Etiópia.

Não obstante, a degradação da situação tornou-se cada vez mais brutal e alarmante. Conforme os rebeldes se insurgiam, a repressão do governo e das milícias leais ao ditador intensificavam-se, com uma crueldade cada vez mais pertubadora. Cidades, comunidades e vilarejos inteiros foram arrasados e destroçados de forma ostensiva pelos esquadrões paramilitares do governo; aqueles que milagrosamente sobreviviam, evacuavam sistematicamente para localidades ermas e remotas, ou para fora do país. Clãs como os isaaqs e os majerteen, cuja história e autonomia eram possivelmente considerados uma ameaça para a manutenção de poder do governo ditatorial vigente, foram especificamente apontados para serem eliminados. Eventualmente, a situação descarrilhou para um caos tão drástico e irreversível, que deflagrou uma guerra civil, que dura até hoje.

A coalizão e a colaboração de diversas milícias eventualmente tornou-se tão eficaz — e as milícias que lutavam por Siad Barre, eventualmente ficaram tão combalidas —, que as forças rebeldes foram capazes de subverter o regime, e o ditador foi obrigado a fugir. O ditador escapou para o sul do país, refugiando-se em uma região que servia basicamente como um feudo de proteção para a sua família. De lá, Siad Barre tentou retomar o poder, partindo para a capital em diversas ocasiões, em um curto espaço de tempo.

Quando percebeu que seria impossível retomar o controle do país, por perder efetivamente o apoio logístico e militar que tornaria isso possível — até mesmo como uma consequência natural da dilaceração e da precariedade em larga escala provocada pela guerra que ele mesmo deflagrou, no seu desespero para manter o poder —, Siad Barre não teve alternativas, senão deixar o pais. Eventualmente, exilou-se no Quênia. Lá permaneceu pouco tempo. Protestos de ativistas que eram contrários à sua presença no país, e contrários ao apoio do governo queniano ao ditador, tornaram-se tão tensos e massivos, que obrigaram-no a ir embora. Siad Barre estabeleceu-se, então, na Nigéria. Lá, o ditador faleceu em janeiro de 1995, aos setenta e cinco anos, pouco mais de três anos depois de sua deposição.

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